Hoje em dia, um dos temas mais em foco na literatura sobre gestão de empresas está relacionado com a gestão do conhecimento e com os processos de aprendizagem que ocorrem dentro e entre organizações.
Quer estejamos a falar na exploração de pequenas ideias ou conceitos de produto por parte de uma empresa ou em grande projetos de I&D que envolvem múltiplos atores, as atividades das organizações presentes no processo de inovação estão constantemente associadas a fluxos de conhecimento entre todos os intervenientes.
A aprendizagem é um elemento inerente a qualquer relacionamento entre duas ou mais organizações, independentemente da sua dimensão, dos mercados ou dos produtos e serviços oferecidos.
Ainda assim, existem muitas empresas que não exploram (individualmente ou em conjunto) a possibilidade de aprender através de diferentes formas ou por diferentes meios. Neste artigo, vou falar um pouco sobre algumas das formas que as empresas têm para interiorizar novos conhecimentos e acelerar o processo de aprendizagem.
Gestão Contemporânea do Conhecimento
Há muitos anos atrás as empresas lutavam arduamente para conseguirem informações sobre o mercado e as suas preferências de consumo. A informação escasseava e quando estava disponível nem sempre chegava com a qualidade desejada.
Com o passar dos anos o mundo assistiu a uma verdadeira revolução tecnológica à escala global que tornou, de certa forma, o mundo mais pequeno. As fronteiras entre as empresas e os mercados tornaram-se mais ténues e, com o desenvolvimento e expansão das tecnologias de informação e comunicação, a informação passou a estar ao serviço das ,empresas e dos clientes em grandes quantidades. Os mercados estão melhor informados sobre as ofertas dos fornecedores e parceiros e as organizações conseguem obter mais informações sobre, por exemplo, eficiência produtiva, tendências globais, preferências dos clientes e até o comportamento e situação competitiva da concorrência.
Esta mudança veio também a alterar radicalmente a forma como as empresas fazem a gestão do conhecimento. Se antes era difícil encontrar informações para a resolução do problema, hoje o desafio é filtrar aquela que realmente interessa. Mais do que ter grandes quantidades de informação que podem não ter utilidade nenhuma, o segredo é perceber as que são realmente úteis para a empresa. Em muitos casos, pode ser interessante obter novos conhecimentos para além dos estritamente necessários: mas mesmo aqui, a filtragem é uma atividade necessária.
O conhecimento está cada vez mais disperso pelas pessoas e organizações. Gerir o conhecimento envolve custos mas é fulcral para que os processos de aprendizagem possam fluir pela organização. Por vezes, pode não ser útil aprender coisas que em nada estão relacionadas com o negócio. A aprendizagem deve ser suportada por uma gestão eficaz do conhecimento o que implica necessariamente uma filtragem adequada das informações que as empresas têm ao seu dispor.
Aprendizagem Diversificada
Vimos que a dispersão do conhecimento coloca o desafio às empresas sobre como filtrar aquele que realmente é útil para a evolução dos seus negócios. Mas não é tudo. O facto do conhecimento estar cada vez mais disperso faz com que os modos como as empresas podem aprender esses conhecimentos também variem.
Se pensarmos, por exemplo, num aluno universitário, que está a estudar para um determinado exame do seu curso, ele pode aprender a matéria através de diferentes formas:
- Manual da cadeira;
- Sebentas de outros anos;
- Aulas da disciplina;
- Resolução de exames anteriores;
- Investigação própria;
- Diálogo com o professor (fora das aulas), família ou colegas.
Estas são apenas algumas das formas através das quais um simples aluno universitário pode estudar para o exame que está prestes a ter. Se deslocarmos esta lógica para o mundo empresarial, as fontes de conhecimento estão em maior número e complexidade.
Mas tal como o aluno pode (e deve) estudar a partir de diferentes formas, as empresas devem seguir os mesmos passos e tirar partido de diferentes maneiras de aprenderem novos conhecimentos. O modelo da próxima figura ilustra algumas destas formas que considero muito pertinentes no modo como as organizações podem incorporar e desenvolver novos conhecimentos
Figura: Modelo representativo da lógica de Learning By
(Adaptado de Maidique & Ziger, 1985)
Este modelo, retirado e adaptado de Maidique & Ziger (1985), apresenta uma interessante desagregação da forma como os processos de aprendizagens são gerados, nomeadamente:
- Leaning-by-interacting;
- Learning-by-doing;
- Learning-by-failure;
- Learning-by-using.
A este conjunto de perspetivas de aprendizagem, vou falar também do conceito de learning-before-doing, constrastando-o com o learning-by-doing.
1. Learning-by-doing vs Learning-before-doing
1.1. Learning-by-doing
O learning-by-doing constitui aquela que é, provavelmente, a forma mais básica de aprendizagem, na qual as pessoas e as empresas aprendem fazendo. No fim, espelha um pouco a realidade fora do mundo empresarial. Por exemplo, as pessoas sabem que quantas mais aulas de condução tiverem maior é a sua facilidade em conduzir um determinado carro. Os alunos que estudam matemática também sabem que podem dominar mais facilmente a matéria se realizarem vários tipos de exercícios relacionados.
Nas empresas acontece o mesmo. Elas aprendem através das suas atividades, ajustando, melhorando e continuando a fazer até conseguirem os resultados pretendidos. É uma aprendizagem constante na medida em que os colaboradores e as empresas estão de forma contínua a aprender através de experiência própria.
Na indústria, o contacto constante com determinados processos ou sistemas operacionais permite que gradualmente os engenheiros aperfeiçoem os seus métodos de desenvolvimento e consigam até detetar ineficiências nos processos atuais que podem dar asas a oportunidades de melhoria futura. Por exemplo, o operador de uma máquina de corte com problemas de precisão devido à vibração excessiva da serra elétrica sabe, por experiência própria, que deve diminuir gradualmente a velocidade da lâmina.
O learning-by-doing, para além da possibilidade contínua de aprendizagem (de cada vez que os processos, atividades e operações são levadas a cabo), é também relevante para que os engenheiros, a produção, o marketing, etc, possam, através do aperfeiçoamento desses processos, conseguir compreender de perto as mecânicas e os funcionamentos do mesmo.
1.2. Learning-before-doing
Aprender à medida que desenvolvemos e fazemos as coisas é, de facto, muito rico e indispensável. Mas, em indústrias como a bioquímica, a complexidade dos processos e dos produtos obriga a que as empresas tenham de investir em I&D. Todo o conhecimento que é possível ter acesso antes de se passar para a fase de produção ou para a transição para pilotos de grande escala é fundamental.
Nestes casos, o learning-before-doing, ou seja, aprender antes de fazer, assume um papel crucial para as organizações. A simulação por computador, os algoritmos, as teorias e o trabalho de laboratório são algumas formas das empresas aprenderem antes de passarem para fases mais avançadas do processo.
Embora alguns problemas ou conhecimentos só possam ser interiorizados quando se está a trabalhar numa escala maior ou em fases mais avançadas do processo, o learning-before-doing pode ser extremamente útil quando as empresas pretendem reunir conhecimento antes de transferirem os seus processos para as operações.
1. Learning-by-doing vs Learning-before-doing
1.1. Learning-by-doing
O learning-by-doing constitui aquela que é, provavelmente, a forma mais básica de aprendizagem, na qual as pessoas e as empresas aprendem fazendo. No fim, espelha um pouco a realidade fora do mundo empresarial. Por exemplo, as pessoas sabem que quantas mais aulas de condução tiverem maior é a sua facilidade em conduzir um determinado carro. Os alunos que estudam matemática também sabem que podem dominar mais facilmente a matéria se realizarem vários tipos de exercícios relacionados.
Nas empresas acontece o mesmo. Elas aprendem através das suas atividades, ajustando, melhorando e continuando a fazer até conseguirem os resultados pretendidos. É uma aprendizagem constante na medida em que os colaboradores e as empresas estão de forma contínua a aprender através de experiência própria.
Na indústria, o contacto constante com determinados processos ou sistemas operacionais permite que gradualmente os engenheiros aperfeiçoem os seus métodos de desenvolvimento e consigam até detetar ineficiências nos processos atuais que podem dar asas a oportunidades de melhoria futura. Por exemplo, o operador de uma máquina de corte com problemas de precisão devido à vibração excessiva da serra elétrica sabe, por experiência própria, que deve diminuir gradualmente a velocidade da lâmina.
O learning-by-doing, para além da possibilidade contínua de aprendizagem (de cada vez que os processos, atividades e operações são levadas a cabo), é também relevante para que os engenheiros, a produção, o marketing, etc, possam, através do aperfeiçoamento desses processos, conseguir compreender de perto as mecânicas e os funcionamentos do mesmo.
1.2. Learning-before-doing
Aprender à medida que desenvolvemos e fazemos as coisas é, de facto, muito rico e indispensável. Mas, em indústrias como a bioquímica, a complexidade dos processos e dos produtos obriga a que as empresas tenham de investir em I&D. Todo o conhecimento que é possível ter acesso antes de se passar para a fase de produção ou para a transição para pilotos de grande escala é fundamental.
Nestes casos, o learning-before-doing, ou seja, aprender antes de fazer, assume um papel crucial para as organizações. A simulação por computador, os algoritmos, as teorias e o trabalho de laboratório são algumas formas das empresas aprenderem antes de passarem para fases mais avançadas do processo.
Embora alguns problemas ou conhecimentos só possam ser interiorizados quando se está a trabalhar numa escala maior ou em fases mais avançadas do processo, o learning-before-doing pode ser extremamente útil quando as empresas pretendem reunir conhecimento antes de transferirem os seus processos para as operações.
2. Learning-by-interacting
Como já vos falei em vários artigos meus, as empresas vivem hoje num contexto de rede, onde estabelecem interações através de relacionamentos de negócios. Estes relacionamentos podem envolver poucos ou muitos atores, diferentes competências, podem se mais ou menos complexos e de curta, média ou longa duração.
Independentemente do tipo de relacionamento, as interações que dele advém fazem movimentar fluxos de informação e conhecimento entre os intervenientes. Todas as aprendizagens que daqui decorrem podem ser enquadradas na perspetiva de learning-by-interacting, em que o relacionamento ou interação é visto como o elemento central do processo de aprendizagem.
Esta é outra das formas mais básicas de aprender se tivermos em conta que o conhecimento está cada vez mais disperso e que as empresas por si só pouco podem fazer para sobreviver. As aprendizagens desenvolvem-se através de relações dentro da empresa mas também com clientes, fornecedores, complementadores e outras organizações. Em contexto de rede, aprender é cada vez mais dar a aprender, e vice-versa.
3. Learning-by-failure
Qualquer organização expressa, de forma mais ou menos aberta, o seu desejo em tornar-se gradualmente melhor ao longo do tempo. Todos os gestores ambicionam melhorar à medida que desenvolvem os seus negócios, mas por vezes as coisas não correm de acordo com o que pretendiam. São tomadas decisões de forma precipitada, os recursos e competências disponíveis são escassos e as estratégias seguidas são inadequadas.
As empresas são compostas por seres humanos que por vezes não tomam as melhores decisões na prossecução das suas tarefas e objetivos. O erro faz parte da atividade das empresas e quando aproveitado, dá asas a uma fonte bastante interessante de aprendizagem, designada por learning-by-failure.
Errar, obviamente, nunca é bom. Mas saber aprender a partir do erro é uma competência que é necessário desenvolver e que deve ser comum a toda a organização. Em muitos casos, é preciso errar para se chegar onde se quer chegar.
Mas é preciso ter cuidado para não cairmos naquilo que gosto de chamar de armadilha da aprendizagem pelo erro: aprender através dos nossos erros é fundamental para o desenvolvimento pessoal e da organização, mas camuflar constantemente os erros através da aprendizagem não é uma boa opção. Em muitos casos, as empresas podem conseguir aprendizagens que em nada contribuem para a sua atividade ou para as suas unidades de negócio.
4. Learning-by-using
A proximidade ao mercado pode ser muito importante no processo de desenvolvimento de novos produtos. Se as empresas conseguirem, com maior ou menor dificuldade, testar os seus produtos junto dos clientes para obterem feedback sobre os mesmos podem conseguir informações relevantes sobre as funcionalidades do produto que estão bem, as que podiam ser melhoradas e as que deviam ser implementadas ou removidas por completo.
Estar perto do mercado pode ser muito importante para as organizações conseguirem perceber como dirigir as suas ofertas para determinados clientes ou segmentos de clientes, que no fim poderão ser quem realmente irá utilizar os produtos e serviços. A noção de learning-by-using advém precisamente da aprendizagem através de certos atores ou grupos de atores que utilizam o produto para testar determinadas características do mesmo e avaliar a sua performance.
Aprender com o mercado pode ser extremamente rico. Uma característica que para um designer pode parecer esteticamente apelativa, para o mercado pode ser algo extra e secundário e para qual não está disposto a pagar.
Há certos aspetos que as empresas só aprendem com os utilizadores, por mais experiência e domínio que tenham das tecnologias que controlam. Ouvir o mercado e reunir o feedback que o mesmo deu é uma mais valia para qualquer empresa. Não é demais frisar que muitos destes utilizadores de teste poderão vir a ser os clientes finais do produto.
Saber Aprender de Diferentes Formas
Estar perto do mercado pode ser muito importante para as organizações conseguirem perceber como dirigir as suas ofertas para determinados clientes ou segmentos de clientes, que no fim poderão ser quem realmente irá utilizar os produtos e serviços. A noção de learning-by-using advém precisamente da aprendizagem através de certos atores ou grupos de atores que utilizam o produto para testar determinadas características do mesmo e avaliar a sua performance.
Aprender com o mercado pode ser extremamente rico. Uma característica que para um designer pode parecer esteticamente apelativa, para o mercado pode ser algo extra e secundário e para qual não está disposto a pagar.
Há certos aspetos que as empresas só aprendem com os utilizadores, por mais experiência e domínio que tenham das tecnologias que controlam. Ouvir o mercado e reunir o feedback que o mesmo deu é uma mais valia para qualquer empresa. Não é demais frisar que muitos destes utilizadores de teste poderão vir a ser os clientes finais do produto.
Saber Aprender de Diferentes Formas
Explorámos neste artigo algumas formas através das quais as empresas podem conseguir aprender novos conhecimentos e gerar novas competências. Vimos que as empresas podem aprender muito quando estão em contacto directo com os seus processos e operações, com os utilizadores finais ou com outros atores como os fornecedores, e também que é possível aprender quando existe a capacidade de gerar conhecimentos a partir dos erros.
Acima de tudo, o que importa salientar, é que o learning-by-doing, o learning-by-using ou qualquer outro modo de aprendizagem aqui mencionados não são modelos que as empresas podem/devem seguir mas sim perspetivas de aprendizagem que valem sobretudo como um todo, e não apenas de forma isolada.
Acima de tudo, o que importa salientar, é que o learning-by-doing, o learning-by-using ou qualquer outro modo de aprendizagem aqui mencionados não são modelos que as empresas podem/devem seguir mas sim perspetivas de aprendizagem que valem sobretudo como um todo, e não apenas de forma isolada.
Até porque, em última instância, estas perspetivas de aprendizagem tem fronteiras muito pouco definidas. Ao aprender com os utilizadores dos produtos as empresas podem descobrir erros na conceção dos mesmos ou nos processos de fabrico (combinação de learning-by-using com learning-by-failure). Por outro lado, se o desenvolvimento de novos produtos for feito em conjunto com outras empresas é possível aprender simultaneamente através de learning-by-interacting e learning-by-doing.
Mais uma vez, o que importa sublinhar é a combinação destas diferentes perspetivas de aprendizagem para o desenvolvimento e partilha de conhecimentos entre as empresas, e não encarar as mesmas como modelos teóricos que devem ser seguidos metodicamente para se conseguir acelerar o processo de aprendizagem.
